terça-feira, 7 de maio de 2019

Amigo


Mesmo que o teu caminho
não seja o mesmo que o meu

Mesmo que a tua vontade
não desperte desejos em mim

Mesmo que a minha alegria
fira a tua tristeza
e tuas gargalhadas
não encontrem risos em mim

Saiba que eu estou em você
e que você sempre estará em mim 

Afinal, a manga, a maçã.
o jenipapo e o tamarindo
são irmãos da jaca, da banana
e do abacaxi.

Douglas de Almeida
imagem: google

Cotidiano


O ir e vir dos ônibus,
As estradas
As entranhas do dia...

A ponte sobre o rio
O frio do mendigo
A calçada deserta...

Tudo isso alimenta
O meu rebocador de utopias.

(Danniel Valente)
imagem: google

sábado, 20 de outubro de 2018

Um trechinho do comentário de Paulo Leminski

Por que é que os povos amam seus poetas? É por que os povos precisam disso, porque os poetas dizem uma coisa que as pessoas precisam que seja dita. O poeta não é um ser de luxo, ele não é uma excrescência ornamental da sociedade. Ele é uma necessidade orgânica de uma sociedade. A sociedade precisa daquilo, daquela loucura pra respirar. É através da loucura dos poetas, através da ruptura que eles representam, que a sociedade respira dessa pressão que eu tava falando de de repente você ter uma máquina em cima de você, que você não escolheu, não pediu, mas não adianta nada você espernear, ela é maior do que você

Paulo Leminski - Ervilha da Fantasia (1985) - naked version -

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Sibila

Já quase não enxergo o teclado
embaçado a fim de desenjaular
o verso insinuante, raro e erradio,
dessa opressão infinita do infinito.

Já quase não pretendo o que nada
tangencia, roça, esbarra ou rabisca
as lacunas dos labirintos da poesia.
Ouço silêncios. O escuro. As ciladas.

Já quase não relaxo em ócios do ofício
constante de reconhecer o desconhecido,
de a engenharia da palavra fazer o link
entre a passarela imagética dos signos.

Já quase não respiro e nos jardins em volta,
vou e volto, vou e persigo e insisto na derrota
anunciada, pois o poeta não tem mais chance
contra a fome dos ágoras, atrás do rabo do antes.

Já quase não duvido mais de que a solidão cria
vozes secretas pelas frestas repletas de vazios,
de ecos sem gritos e de sílabas que movem-se
por meio de delicados timbres e variados códices.

O poema é uma lufada sibilina. Sem sul. Sem norte.

Marlos Degani

Paraquedas


Inspiração
É quando a folha cai,
E vai, lentamente, sem um ai...

Ciente de que o poeta
Abrirá o paraquedas
Do poema...

Danniel Valente
imagem: google


segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Um soneto de Lena Ferreira


eu canto, com ou sem motivo,
sorrio até sem ter vontade
- não pense que por vaidade
mas sim para manter-me vivo -

meu coração não é cativo
só segue o que lhe dá vontade
alheio às tolas verdades
a parte; assim, eu sobrevivo

eu canto e, como em qualquer canto,
às vezes também desafino
mas nem por isso perco o encanto

por mais que viva, sou menino
- qual um passarinho em voo amplo
é assim que sigo o meu destino -

do livro "Quartecetos", 2014,